Uma teoria sobre como a infestação em Sangue Quente funcionava

Sangue Quente, de Isaac Marion, é aquela história sobre um zumbi que se apaixona por uma humana – levando à Exumação do Mundo. Sim, aquele livro, com aquela adaptação cinematográfica horrorosa e desleixada. Não, não foi o primeiro a ter uma proposta dessas, não será o último.

Você pode ter virado os olhos agora, morrendo de vontade de julgar este post. Eu peço encarecidamente que não o faça, porque esta teoria vai mudar sua percepção da história – infelizmente não posso te oferecer seu dinheiro de volta, caso o post não consiga seu objetivo. Bom, sem ressentimentos, certo? Somos todos do bem por aqui, né?

Para começo de conversa, o cenário do livro é o “fim do mundo” estagnado – rumo ao declínio de seu ciclo de vida, na verdade. Muitas histórias gostam de tratar o fim do mundo como um evento que vai crescendo ad infinito, cuja ascensão nunca para e que jamais acha um estado de equilíbrio. Em Sangue Quente, o mundo pós-colapso está plenamente estagnado, mas os modos de existir dos zumbis e sobreviventes está para mudar.

What a time to be alive, se você for um zumbi! Tem menos humanos zanzando por aí, mas os mortos estão com uma sociedade avançada o bastante para ter seus próprios ritos e cultos. Bom, na medida do possível, já que os mortos ainda não são criaturas das mais falantes ou das mais coordenadas.

Não sabemos o que causou o “fim do mundo”, nem de onde isso possa ter vindo, mas há um momento em que o narrador, o zumbi L, diz que pode ter vindo do espaço – ou pode ter sido só a boa e velha Super-Bactéria criada em laboratório.

Minha teoria aposta na primeira hipótese. A praga veio de algum lugar da galáxia, como já aconteceu em outras histórias (Night of the Living Dead tem como mote a poeira espacial de um cometa que caiu, se não me engano. The living and the dead, de Jason, começa com isso também), mas a praga não foi uma fatalidade. Ela era planejada.

Na sofisticada comunidade zumbi de Sangue Quente, há dois tipos de morto: os regulares, que são o zumbi nosso de cada produção (eles grunhem, se arrastam, às vezes correm, comem seres humanos vivos e cavalos, etc, etc), e os Ossudos, que são, literalmente, só ossos e alguma cartilagenzinha aqui e ali pra manter a coisa toda articulada.

Os Ossudos não têm outros órgãos além do cérebro. Eles não possuem olhos para ver nem músculos para se mover, mas eles vêem tudo e são de agilidade ímpar. Não falam, mas conseguem emitir um som que deveria ser um grito, mas é inexplicavelmente inumano, segundo a história.  Eles são mais poderosos e têm mais recursos para executar as coisas, então, eles são os líderes de toda a comunidade morta-viva do aeroporto.

Os mortinhos normais estão caindo aos pedaços pelos cantos, mas têm um grau de consciência altíssimo em comparação ao zumbi padrão (apesar de R se comportar como se ele fosse um dos poucos escolhidos com alguma consciência no mundo, um pequeno floco de neve especial. Ele não é isso tudo). Eles conseguem balbuciar algumas palavras e se organizar conscientemente em torno de um objetivo. Também são capazes de lembrar de como era ser vivo, ainda que a maioria não se lembre dos próprios nomes ou de coisas específicas de suas vidas.

Além de os zumbis comuns não lembrarem de coisas específicas da vida, também não sabem ler – ou seja, um deles poderia ter todas as respostas, escritas bem diante de seus olhos,  e ele jamais saberia. Num geral, eles são bem desanimadinhos, porque ser zumbi tem várias limitações, é de matar a vontade de qualquer um. Tudo isso os torna a perfeita massa de manobra.

E quem está manobrando? Os Ossudos e suas polaroids, obviamente. Polaroids, claro. Afinal, como você explica para uma população de indivíduos incapacitados de ler o que que tá acontecendo? Com figuras. Algo me diz que os Ossudos não eram os melhores desenhistas, então recorreram à fotografia.

Olha, se isso fosse uma dominação alienígena, eu diria que deu super-certo. 90% da população está sob controle e os outros 10% está apavorado e encrencado demais para querer se revoltar.

Sim, eu estou dizendo que os Ossudos são alguma espécie de vida alienígena, que era extremamente semelhante a um esqueleto humano, só que com os crânios impossivelmente duros. Não, eu não estou sob influência de nenhuma substância ilícita (nem lícita).

E eu digo mais: A força dos Ossudos era diretamente proporcional à quantidade de humanos convertidos em mortos comuns. Quanto mais infectados, mais fortes eles seriam.

Isso explicaria porque a infecção funcionava de formas estranhas e como os infectados conseguiam ter um nível de inteligência e consciência tão mais altos que os da maioria de histórias sobre infestações – mais alto que isso, só se eles fossem resultado direto do capeta, como em Evil Dead e REC, ou se isso fosse um filme do Peter Jackson.

Só que os Ossudos não checaram o ciclo de vida da dominação deles. Houve a introdução do patógeno espacial no ambiente Terrestre, aí houve a expansão da infestação, seu ápice e aí a estagnação, que foi levando lentamente ao declínio.

A coisa é ladeira abaixo a partir do momento em que R se expõe às memórias de Perry e, por osmose, passa a amar Julie. Começa aí toda a proposta de Exumação do Mundo, que é o fio condutor da história. R começa a criar resistências às próprias limitações impostas pela condição desmorta.

O que se inicia com ele começa a se espalhar entre os outros mortos do local. O descontrole dos Ossudos cresce exponencialmente daí em diante, porque R passa a ser o antígeno que está predando todo o sistema infeccioso formado, num processo que espelha a infecção zumbi que levou o mundo àquele estado.

Tudo isso culmina na luta entre Ossudos e mortos comuns (ft. humanos, que deveriam ser os mais interessados na coisa toda), cujo ponto alto é a destruição de um dos Ossudos por R. A cena, a meu ver, é uma pequena projeção do que estaria acontecendo em todo o mundo: A infecção fica cada vez mais fraca em R, o que permite que ele destrua o Ossudo, pois ele se fortalece mais conforme se afasta da natureza de morto-vivo.

A luta termina com a transformação do Coronel Grigio, pai de Julie, em um Ossudo, como se ele fosse a síntese de toda a doença e a estivesse incubando dentro de si, sem que houvesse manifestação. Em contrapartida, Julie surge como uma pessoa imune ao que quer que os Ossudos tivessem, a cura para o problema – o que é fantástico, porque temos a cura como algo nascido da própria doença. (Cá pra nós, ainda não entendi muito bem como isso tudo rolou, mas foi o que aconteceu)

Resumindo: Ossudos eram aliens que se alimentavam da infecção nas pessoas. E eles até que estavam se dando bem, até R achar uma forma de sair das limitações da condição de zumbi – aí foi igual Jenga, bastou puxou uma peça, que não poderia ter sido puxada, e a coisa toda desabou.

O último ponto que me faz acreditar que tudo isso seria plausível na história é que, ao final, os Ossudos não desaparecem, mas ficam vagando, cada dia mais enfraquecidos, em um processo bastante coerente – não apenas um “Yay! Vencemos e todo o mal se foi”, mas um muito esperto e bem colocado “Estamos reagindo à doença e, agora, temos alguma chance de nos recuperar”.

Sobre Thiago Vitezi

Um moleque, um monstro capitalista de duas caras, bastardo e malvado.